Inventário de produtos químicos: o que é, como elaborar e quais empresas precisam

Trabalhador com capacete move tambor azul de produto químico com rótulo de risco em um galpão

Faça um teste rápido: pergunte para três pessoas da sua empresa quantos produtos químicos vocês têm. O comprador vai dar um número, o pessoal da produção vai dar outro e a equipe de limpeza nem vai se reconhecer na pergunta.

Esse desencontro é o motivo de o inventário de produtos químicos existir. Sem ele, não dá para saber se todas as FDS estão em dia, se o armazenamento está certo, se tem produto controlado sem licença ou se o PGR cobre os riscos que existem de verdade.

Eu sou responsável técnico de unidade industrial e já tive uma fábrica de produtos de limpeza. Já vi inventário bem feito e já vi muita planilha de vinte linhas para uma empresa que tinha mais de cem produtos. Neste artigo eu explico o que é o inventário, quem precisa ter, o que ele deve conter e como elaborar passo a passo. No meio do texto tem um modelo gratuito em Excel para você baixar.

O que é o inventário de produtos químicos?

O inventário de produtos químicos é a lista organizada de todos os produtos químicos que a empresa compra, armazena, usa, fabrica ou descarta, com as informações de perigo, quantidade, local e uso de cada um.

Não é o controle de estoque do almoxarifado. O estoque responde "quanto eu tenho para vender ou usar". O inventário responde perguntas de segurança, de saúde e de conformidade:

  • Quais produtos perigosos existem aqui dentro?
  • Onde cada um está e em que quantidade?
  • Quem manuseia e em que atividade?
  • A FDS está disponível e atualizada?
  • Algum é controlado pela Polícia Federal ou pelo Exército?
  • O que fazer com o resíduo e com a embalagem vazia?

Ele é a base de quase tudo o que vem depois na gestão química: o PGR, a matriz de incompatibilidade, o plano de emergência, o treinamento da equipe e a rotina de licenças.

Inventário de produtos químicos e inventário de riscos do PGR são a mesma coisa?

Não, e essa confusão aparece muito.

O inventário de riscos é uma parte obrigatória do PGR, exigida pela NR-1. Ele lista os perigos e os riscos de todas as atividades da empresa: físicos, químicos, biológicos, de acidentes, ergonômicos e psicossociais.

O inventário de produtos químicos é a lista dos produtos em si. Ele alimenta a parte química do inventário de riscos. Sem a lista de produtos, quem faz o PGR acaba escrevendo "exposição a produtos químicos diversos", e isso não descreve risco nenhum.

Na prática: primeiro você sabe o que tem, depois avalia quem se expõe, como e quanto. Se quiser entender melhor o programa, veja o artigo sobre PGR para pequena empresa.

Quais empresas precisam de inventário de produtos químicos?

Não existe uma norma única chamada "inventário de produtos químicos" que valha para todo mundo. A obrigação vem de várias regras que, juntas, só podem ser cumpridas se a empresa souber exatamente o que tem.

RegraO que exigePor que depende do inventário
NR-1 (PGR)Identificar perigos e avaliar riscos de todas as atividadesNão dá para avaliar o risco de um produto que ninguém listou
NR-26FDS e rotulagem para todo produto químico perigosoÉ o inventário que mostra se falta FDS de algum produto
NR-20Classe da instalação conforme a capacidade de armazenamento de inflamáveis e combustíveisA soma das quantidades define a classe e as exigências
NR-32Inventário de todos os produtos químicos nos serviços de saúde, inclusive intermediários e resíduosAqui a exigência é literal, no item 32.3.4.1
Polícia FederalLicença e mapas de controle no Siproquim para produtos da lista controladaSem inventário, um produto controlado passa despercebido
ExércitoRegistro para produtos controlados pelo Decreto 10.030/2019Mesmo motivo: precisa saber se tem e quanto tem
Licença ambiental e bombeirosInformações sobre produtos perigosos, quantidades e armazenamentoOs formulários pedem dados que saem do inventário

Em resumo, precisa de inventário de produtos químicos toda empresa que usa ou armazena produto químico perigoso no trabalho. Os casos mais comuns:

  • Fábricas de saneantes, cosméticos, tintas e alimentos, que lidam com matéria-prima química todos os dias.
  • Distribuidoras e revendas de produtos químicos, que armazenam muitos produtos diferentes no mesmo galpão. Veja também o artigo sobre RT para distribuidora.
  • Indústrias em geral, mesmo quando o produto final não é químico: metalúrgicas, gráficas, têxteis e indústrias de plástico usam solventes, ácidos, óleos e gases.
  • Hospitais, clínicas, laboratórios e serviços de saúde, por causa da NR-32.
  • Tratamento de água, lavanderias, oficinas e postos, que lidam com cloro, ácidos, solventes e combustíveis.
  • Transportadoras e operadores logísticos de produtos perigosos. Leia o artigo sobre a Resolução ANTT 5.998.

O que o inventário precisa conter

Também não existe modelo oficial. O que existe é a informação mínima para o inventário ser útil. Eu trabalho com 12 grupos de colunas:

As 12 colunas do inventário de produtos químicos
ColunaO que preencherDe onde tirar
IdentificaçãoNome comercial, fornecedor, componentes perigosos e nº CASRótulo e seção 1 e 3 da FDS
Perigos (GHS)Classificação, pictogramas e frases de perigoSeção 2 da FDS
TransporteNº ONU e classe de riscoSeção 14 da FDS
FamíliaGrupo de compatibilidade para armazenarSeções 7 e 10 da FDS
QuantidadeMáximo armazenado e consumo médio por mêsEstoque e compras
LocalAlmoxarifado, ilha, armário, tanqueLevantamento físico
Uso e exposiçãoSetores, atividades e nº de trabalhadores expostosProdução e RH
FDSSe está disponível e a data da revisãoArquivo de FDS
Controle legalSe é controlado pela PF ou pelo ExércitoListas oficiais
ControlesEPI, EPC e medidas do PGRPGR e seção 8 da FDS
ResíduoDestino do resíduo e da embalagemPGRS e seção 13 da FDS
RevisãoResponsável e data da última atualizaçãoGestão

Repare que metade das colunas sai da FDS. Por isso inventário e FDS andam juntos. Se você ainda tem dúvida sobre o documento, comece pelo artigo Ficha com Dados de Segurança (FDS): o que é e quem precisa ter.

Modelo gratuito
Planilha de inventário de produtos químicos + matriz de incompatibilidade
Excel com as 23 colunas já prontas, listas de seleção, filtro, linha de exemplo e uma aba com a matriz de incompatibilidade e um verificador automático.
Baixar a planilha (.xlsx)

Como elaborar o inventário de produtos químicos em 7 passos

Como elaborar o inventário de produtos químicos em 7 passos

1. Faça o levantamento físico

Comece andando, não pela planilha. Passe por todos os setores com um formulário ou com o celular e anote cada produto que encontrar: nome do rótulo, fornecedor, embalagem, quantidade aproximada e onde está.

O erro mais comum é olhar só o almoxarifado da produção. Os produtos esquecidos ficam em outros lugares:

Onde os produtos químicos esquecidos costumam estar

Também vale abrir armários, olhar embaixo de bancadas e conferir o que está no pátio. Frasco sem rótulo entra no inventário como pendência: ou identifica, ou descarta corretamente.

2. Cruze com as compras

Puxe as notas fiscais e os pedidos de compra dos últimos 12 meses e compare com o que você encontrou. Esse cruzamento mostra o produto que é comprado de vez em quando e não estava no galpão no dia da visita, e o produto que a manutenção compra direto no cartão.

3. Reúna as FDS

Para cada produto, separe a FDS do fornecedor e confira se ela está no padrão da ABNT NBR 14725:2023. A transição para a norma nova terminou em julho de 2025. FISPQ antiga, sem atualização, é pendência.

Se o fornecedor não mandou a FDS, peça por escrito. Ele é obrigado a fornecer.

4. Classifique cada produto

Com a FDS em mãos, preencha:

  • a classificação de perigo GHS e os pictogramas (seção 2). Se tiver dúvida sobre os símbolos, veja o artigo sobre rotulagem GHS;
  • o número ONU e a classe de risco para transporte (seção 14);
  • a família de compatibilidade, que vai ser usada para decidir o que pode ficar junto no armazenamento;
  • se o produto está na lista de controlados da Polícia Federal ou do Exército. Ácido clorídrico, ácido sulfúrico e acetona, por exemplo, estão na lista da PF. Veja o artigo sobre produtos controlados pela PF e pelo Exército.

5. Quantifique e localize

Registre a quantidade máxima que costuma ficar armazenada e o consumo médio por mês, sempre na mesma unidade. Esse número não é detalhe: é ele que define a classe da instalação na NR-20, o porte nos formulários ambientais e o tamanho da bacia de contenção.

Registre também o local exato de cada produto. Inventário que diz "almoxarifado" para tudo não ajuda a montar o mapa de armazenamento nem o plano de emergência.

6. Ligue o inventário ao PGR

Para cada produto perigoso, a pergunta agora é: quem usa, em que atividade, com que frequência e com que proteção? Essa informação vai para o inventário de riscos do PGR, que define as medidas de controle, os EPI e, junto com o PCMSO, os exames dos trabalhadores expostos. Se quiser entender como os dois programas conversam, veja a diferença entre PGR e PCMSO.

Técnico conferindo um checklist em prancheta

7. Defina um dono e uma rotina

O inventário perde a validade no dia em que entra o primeiro produto novo sem passar por ele. Defina:

  • quem é o responsável por manter a planilha;
  • que produto novo só é comprado depois de ter FDS e passar pelo inventário;
  • quando revisar: no mínimo junto com o PGR e sempre que mudar fornecedor, fórmula, processo ou local de armazenamento.

Seu inventário está completo? Faça o checklist

Marque o que a sua empresa já tem. O resultado aparece embaixo.

Checklist do inventário químico
0 de 10 itens. Marque o que a sua empresa já tem.

Os erros que eu mais encontro

  • Inventário feito só pela lista de compras, sem ir ao chão de fábrica.
  • Só o almoxarifado da produção: manutenção, limpeza e laboratório ficam de fora.
  • Nome comercial sem componentes: "Desincrustante X" não diz que o produto é um ácido forte.
  • Quantidade em unidades misturadas: litro, quilo, bombona e "caixa" na mesma coluna.
  • FISPQ antiga arquivada como se estivesse em dia.
  • Produto controlado sem licença, porque ninguém conferiu a lista da PF.
  • Planilha feita uma vez e nunca mais aberta.

Do inventário para a matriz de incompatibilidade

Com o inventário pronto, a próxima pergunta é: o que pode ficar junto de quê? Hipoclorito do lado de um ácido, oxidante do lado de solvente, produto que reage com água em local úmido. Esse é o trabalho da matriz de incompatibilidade química, que transforma o inventário em regras de armazenamento.

Amanhã sai aqui no blog o artigo sobre como elaborar a matriz de incompatibilidade química. A planilha que você baixou acima já tem uma aba com a matriz e um verificador.

Perguntas frequentes

Existe um modelo oficial de inventário de produtos químicos?

Não. As normas dizem o que a empresa precisa saber e controlar, mas não fixam um formulário. O modelo desta página segue as informações que a NR-1, a NR-26 e a FDS pedem.

Quem pode elaborar o inventário?

A própria empresa pode fazer o levantamento. A classificação de perigo, a ligação com o PGR e a análise de armazenamento pedem conhecimento técnico, e normalmente ficam com o profissional de SST ou com o responsável técnico.

Produto de limpeza entra no inventário?

Entra. Água sanitária, desincrustante e detergente alcalino têm FDS e perigos classificados. A equipe de limpeza manuseia esses produtos todos os dias, muitas vezes sem treinamento.

Resíduo químico entra no inventário?

Deve entrar. A NR-32 deixa isso explícito para os serviços de saúde, e na indústria o resíduo tem os mesmos perigos do produto de origem. Ele também precisa de local, identificação e destino definido no PGRS. Veja o artigo sobre o PGRS na indústria.

De quanto em quanto tempo atualizar?

No mínimo junto com a revisão do PGR, e sempre que entrar produto novo, mudar fornecedor ou fórmula, mudar o processo ou mudar o local de armazenamento.


Se a sua empresa nunca fez o inventário de produtos químicos, ou tem uma planilha que ninguém confia, eu posso ajudar. A Scaletec faz o levantamento, revisa as FDS, classifica os produtos, confere os controlados e liga tudo ao PGR, com atendimento remoto e visita quando precisa. Conheça a gestão de SST da Scaletec ou fale direto comigo.

Fontes

  • NR-1: Disposições Gerais e Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (Ministério do Trabalho e Emprego).
  • NR-26: Sinalização de Segurança.
  • NR-20: Segurança e Saúde no Trabalho com Inflamáveis e Combustíveis.
  • NR-32: Segurança e Saúde no Trabalho em Serviços de Saúde, item 32.3.4.1.
  • ABNT NBR 14725:2023: Produtos químicos. Informações sobre segurança, saúde e meio ambiente.
  • Lei 10.357/2001 e IN DG/PF 338/2026 (produtos químicos controlados pela Polícia Federal).
  • Decreto 10.030/2019 (Regulamento de Produtos Controlados pelo Exército).
  • Fotos: Pexels (licença livre).
Alênio Honório
Alênio HonórioEngenheiro químico e engenheiro de segurança do trabalho. Fundador da Scaletec, atua com SST e regulatório químico para empresas de todo o Brasil.
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O que a Scaletec faz
  • Gestão de SST: PGR, PCMSO, LTCAT, eSocial
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