Aterro com biodigestor: como o lixo orgânico da cidade vira gás e adubo

Vista aérea de uma escavadeira amarela trabalhando sobre resíduos em um aterro

Em junho de 2026, a Prefeitura de Sorriso, em Mato Grosso, anunciou que está estudando biodigestores para a agricultura familiar. A ideia é começar com cerca de 50 famílias, de um total de aproximadamente 500 que vivem da produção no município, e transformar o dejeto dos animais em biogás para a casa e biofertilizante para a roça.

É uma notícia pequena, de página de prefeitura. Mas ela carrega uma lógica que serve para um problema muito maior, que quase todo município do interior tem e quase ninguém gosta de discutir: o que fazer com o lixo.

A mesma tecnologia que transforma esterco em gás pode transformar o resto de comida da cidade em gás e adubo. E o lugar natural para isso é a central de resíduos, ao lado do aterro sanitário.

Sou engenheiro químico e engenheiro de segurança do trabalho, já montei e operei fábrica própria e trabalho com projetos industriais de energia de baixo carbono. Neste guia eu explico como o biodigestor funciona dentro de um sistema de resíduos, mostro dois casos reais, faço uma conta de exemplo para um município de 20 mil habitantes e passo pelo que costuma ficar de fora do discurso: licença, segurança, financiamento, contratação e os erros que derrubam esse tipo de projeto.

O problema: o aterro recebe o que não deveria

Mais da metade do lixo que sai das casas brasileiras é orgânico: resto de comida, casca de fruta, folha, borra de café, poda. É o material mais pesado e mais úmido do saco de lixo.

Quando esse orgânico vai para um lixão, o estrago é conhecido: chorume escorrendo para o solo e para a água, mau cheiro, urubu, fumaça, gente catando no meio do resíduo. O Brasil ainda tem lixão em 1.593 municípios, segundo dados do IBGE compilados no Panorama de Resíduos. Na Bahia são 388 cidades. No Nordeste, mais da metade dos municípios.

Quando o mesmo orgânico vai para um aterro sanitário, o problema diminui, mas não some. O aterro é uma obra de engenharia, com manta de impermeabilização, drenagem de chorume e captação de gás. Ainda assim:

  • o orgânico é o que mais gera chorume, e tratar chorume custa caro;
  • o orgânico gera metano por décadas, de forma lenta e difícil de captar por completo. Parte do gás escapa, e o metano é um gás de efeito estufa muito mais forte que o gás carbônico;
  • o orgânico ocupa volume, e cada metro cúbico de célula de aterro custa dinheiro para construir e licenciar.

A Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/2010) já aponta o caminho: a disposição em aterro é a última opção, e o aterro deve receber o rejeito, aquilo que não tem mais aproveitamento possível. Resto de comida não é rejeito. É matéria-prima.

O que é um biodigestor e o que ele faz com o lixo orgânico

Biodigestor é um tanque fechado onde bactérias decompõem a matéria orgânica sem oxigênio. Esse processo se chama digestão anaeróbia. É o mesmo que acontece no fundo de um aterro ou de uma lagoa, só que controlado: temperatura, mistura, tempo de permanência e acidez são acompanhados para que a decomposição seja rápida e completa.

Em vez de décadas, o resíduo fica algumas semanas dentro do tanque. Dali saem dois produtos.

Biogás

É uma mistura de metano (em geral de 50% a 65%) e gás carbônico, com traços de gás sulfídrico e umidade. Ele pode ter quatro destinos:

  • calor: queimado numa caldeira, num secador ou numa cozinha industrial no lugar de lenha ou gás de botijão;
  • energia elétrica: num motogerador, para abastecer a própria central de resíduos ou injetar na rede;
  • biometano: depois de purificado, vira um gás equivalente ao gás natural, que pode abastecer caminhões de coleta e ônibus ou ser injetado num gasoduto;
  • gás de cozinha comunitário: em escala pequena, para escolas, creches ou cozinhas solidárias.

No Brasil, segundo o Panorama 2025 do CIBiogás, cerca de 62% do biogás produzido vira energia elétrica e 34% vira biometano. O biometano é o destino que mais cresce.

Biofertilizante (digestato)

É o que sobra do resíduo depois da digestão: um material rico em nitrogênio, fósforo e potássio, já estabilizado e com muito menos cheiro que o resíduo original. Ele pode ser usado líquido, como adubo de cobertura, ou separado em uma parte sólida, que pode passar por compostagem.

O biofertilizante é a ponte com a agricultura familiar. No caso de Sorriso, ele volta para a própria propriedade. No caso de uma cidade, ele pode ir para hortas comunitárias, viveiros municipais, praças e produtores da região.

E o aterro?

Com o orgânico desviado para o biodigestor, o aterro passa a receber o rejeito de verdade. Na prática isso significa:

  • vida útil maior: menos volume enterrado por dia;
  • menos chorume: o resíduo que mais gera líquido sai da célula;
  • menos metano fugitivo: o gás passa a ser produzido num tanque fechado, e não numa pilha de lixo;
  • operação mais simples: célula com menos recalque e menos instabilidade.

Aterro com captação de gás ou biodigestor: qual a diferença?

É comum ouvir que "o aterro já gera biogás, então para que biodigestor?". As duas coisas existem e podem conviver, mas funcionam de jeitos muito diferentes.

Biogás de aterroBiodigestor de orgânicos
Matéria-primaLixo misturado, enterradoOrgânico separado
Tempo de geraçãoDécadas, de forma lentaSemanas, de forma controlada
Captação do gásParcial, por poços na massa de lixoTotal, em tanque fechado
Qualidade do gásVariável, com mais contaminantesMais estável
BiofertilizanteNão geraGera
Escala que costuma compensarAterros grandes, regionaisDe poucas toneladas por dia em diante
Efeito na vida útil do aterroNenhumAumenta, porque tira o orgânico

Em aterro grande, a captação de gás continua fazendo sentido para o resíduo que já está enterrado. Para o resíduo que ainda vai chegar, separar o orgânico e tratar no biodigestor costuma ser o caminho melhor, desde que exista coleta separada.

Dois casos que mostram o caminho

Juiz de Fora (MG): uma usina de 100 toneladas por dia

Em março de 2025, a Universidade Federal de Juiz de Fora e a Prefeitura de Juiz de Fora assinaram um convênio para projetar uma usina de resíduos orgânicos com capacidade para até 100 toneladas por dia. O resíduo virá de supermercados, shoppings, indústria de alimentos, estação de tratamento de esgoto e coleta seletiva.

Os números do projeto, segundo a UFJF:

  • biometano suficiente para abastecer de 30 a 40 ônibus da cidade;
  • economia estimada de R$ 1,1 milhão por mês em diesel;
  • 8 toneladas por dia de biofertilizante para áreas verdes do município e para produtores rurais da região;
  • área de 16 mil m², perto de um gasoduto, o que permite injetar o biometano na rede;
  • conclusão prevista para 2027.

Repare em três decisões inteligentes. A primeira é começar pelos grandes geradores (supermercado, shopping, indústria), que entregam resíduo limpo e em volume. A segunda é escolher um destino de alto valor para o gás: o diesel dos ônibus é caro, e trocar diesel paga mais do que trocar energia elétrica. A terceira é a localização perto do gasoduto, que resolve o problema de para onde mandar o biometano.

Söderhamn (Suécia): o segredo está na coleta

Na Suécia, o município de Söderhamn manda o orgânico das casas para uma planta regional de digestão anaeróbia que trata cerca de 20 mil toneladas de resíduo orgânico por ano. O biogás vira combustível de veículos e o digestato vira fertilizante.

O dado que mais importa nesse caso não é técnico. É que 81% das famílias separam o orgânico. A prefeitura conseguiu isso com duas medidas simples:

  • distribuiu sacos de papel de graça para o resíduo orgânico;
  • deu desconto na taxa de lixo para quem adotou o sistema de dois recipientes.

A lição vale para qualquer lugar: biodigestor alimentado com resíduo sujo (plástico, vidro, metal misturado) entope, perde rendimento e gera biofertilizante contaminado, que ninguém quer usar. A qualidade da separação decide o projeto. A tecnologia é a parte mais fácil.

Uma conta de exemplo: município de 20 mil habitantes

Para tirar a conversa do abstrato, fiz uma conta de ordem de grandeza. Os números são ilustrativos, com premissas simples, e servem para mostrar o tamanho da oportunidade. Um projeto real começa pela pesagem do lixo do próprio município.

Premissas:

  • geração de lixo domiciliar em torno de 1 kg por habitante por dia, ordem de grandeza da média brasileira;
  • 50% do lixo é orgânico;
  • nos primeiros anos, o município consegue captar metade desse orgânico separado, começando pelos grandes geradores;
  • cada tonelada de orgânico gera cerca de 120 m³ de biogás, com 60% de metano.

A conta:

ItemValor aproximado
Lixo gerado20 toneladas por dia
Orgânico no lixo10 toneladas por dia
Orgânico captado e levado ao biodigestor5 toneladas por dia
Biogás produzidocerca de 600 m³ por dia
Equivalente em gás de botijão (GLP)cerca de 280 kg por dia, ou uns 20 botijões de 13 kg
Energia elétrica, se for para um geradorcerca de 1.200 kWh por dia
Lixo que deixa de ir para o aterrocerca de 1.800 toneladas por ano

São 20 botijões de gás por dia que podem ir para a cozinha da merenda escolar, para o hospital, para a caldeira de uma indústria vizinha ou para a energia da própria central de resíduos. E são quase 2 mil toneladas por ano que deixam de ocupar a célula do aterro.

Duas observações honestas sobre essa conta. Primeiro, ela não paga sozinha um projeto de biometano: purificar o gás para abastecer veículos costuma exigir escala maior, como em Juiz de Fora. Em município pequeno, o caminho mais realista é usar o biogás como calor ou energia no próprio local, ou entrar num consórcio regional que junte o orgânico de várias cidades. Segundo, o valor econômico não está só no gás: está também no aterro que dura mais, no frete que diminui e no biofertilizante que deixa de ser comprado.

Como isso cabe num município do interior

Não existe um projeto padrão, mas a sequência que eu recomendo é parecida em quase todos os casos.

  1. Fazer a gravimetria. Pesar e separar amostras do lixo em diferentes dias e estações para saber quanto é orgânico de verdade. Sem esse dado, todo o resto é chute.
  2. Começar pelos grandes geradores. Feira livre, mercado municipal, supermercados, restaurantes, abatedouro, cozinha da merenda escolar e poda. É resíduo concentrado e relativamente limpo, que não depende da adesão de cada casa.
  3. Pensar em escala regional. Um consórcio intermunicipal ou uma parceria com agroindústrias da região (laticínio, abatedouro, granja) ajuda a garantir volume o ano inteiro e divide o custo da operação.
  4. Escolher o uso do gás antes da tecnologia. Para onde vai o biogás? Cozinha, caldeira, gerador ou biometano para a frota? O destino define o tamanho e o tipo de planta, e não o contrário.
  5. Dar destino garantido ao biofertilizante. Horta comunitária, viveiro, agricultura familiar, produtores parceiros. Biofertilizante sem destino vira passivo.
  6. Ampliar a coleta separada nas casas aos poucos. Bairro a bairro, com saco ou recipiente próprio, campanha e, se possível, incentivo na taxa, como em Söderhamn.
  7. Licenciar e planejar a operação desde o início. Licença ambiental, responsável técnico e programa de segurança do trabalho entram no cronograma no primeiro dia, não depois da obra.

Tudo isso precisa estar no Plano Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos (PMGIRS) e conversar com o projeto do aterro. Expliquei a transição completa em do lixão ao aterro sanitário.

Tecnologia: o que perguntar ao fornecedor

Existem vários tipos de biodigestor. Sem entrar em detalhe de engenharia, estas são as perguntas que o gestor deve fazer antes de aceitar uma proposta:

  • Digestão úmida ou seca? A úmida trabalha com o resíduo diluído e é comum em agroindústria. A seca aceita resíduo com mais sólidos, como o orgânico urbano, e costuma tolerar melhor algum contaminante.
  • Como é feito o pré-tratamento? Resíduo urbano precisa de triagem e trituração antes de entrar no tanque. Quem tira o plástico, o vidro e o metal?
  • Qual a temperatura de operação? Processos mais quentes são mais rápidos, mas gastam mais energia e exigem mais controle.
  • O que acontece com o biogás quando ele não é usado? Todo biodigestor precisa de um queimador (flare) para não liberar metano quando o consumo para.
  • Como é removido o gás sulfídrico? Ele é tóxico para as pessoas e corrosivo para motores e tubulações.
  • Quem opera e quem treina a equipe? Biodigestor é processo biológico. Precisa de acompanhamento diário, análises de laboratório e manutenção.
  • Quais plantas iguais o fornecedor já tem funcionando no Brasil, com resíduo parecido? Visite antes de comprar.

Biofertilizante: o que precisa saber antes de distribuir

O biofertilizante é um dos maiores atrativos do projeto e também uma das partes mais negligenciadas.

  • Qualidade depende da entrada. Se entra plástico, metal pesado ou vidro, sai biofertilizante contaminado. Coleta separada bem feita é a garantia.
  • Higienização. Dependendo do resíduo e da temperatura do processo, pode ser necessário um tratamento complementar para reduzir patógenos antes do uso em hortaliças.
  • Análise periódica. Nitrogênio, fósforo, potássio, metais e patógenos precisam ser analisados com frequência definida em projeto.
  • Registro para venda. Fertilizantes são regulados pelo Ministério da Agricultura (Lei 6.894/1980 e Decreto 4.954/2004). Doar para uso próprio do município é uma coisa; vender ou distribuir em escala para produtores exige verificar o enquadramento e, em geral, registro.
  • Logística. Biofertilizante líquido é pesado e volumoso. Quanto mais perto do biodigestor estiverem os produtores, melhor.

Licença e segurança: o que não pode ficar de fora

Uma central de resíduos com biodigestor é uma instalação industrial. Ela exige licenciamento ambiental próprio, com estudos sobre efluente, emissões, odor, ruído e trânsito de caminhões. O tipo de estudo depende do porte e do órgão ambiental do estado.

E ela tem riscos sérios para quem trabalha lá dentro:

  • metano é inflamável e explosivo em certas concentrações. As áreas próximas a tanques, gasômetros e tubulações precisam de classificação de áreas e de equipamentos elétricos adequados;
  • gás sulfídrico é tóxico. Em concentração alta ele mata em poucos minutos e, num efeito traiçoeiro, deixa de ser percebido pelo cheiro;
  • o interior do biodigestor e dos tanques é espaço confinado. Entrar para manutenção exige procedimento, permissão de entrada, medição de gases, ventilação, vigia e resgate planejado (NR-33);
  • trabalho em altura em tanques e coberturas (NR-35) e eletricidade em painéis e geradores (NR-10).

Isso significa detectores de gás, treinamento, procedimentos escritos, programa de gerenciamento de riscos (PGR) que inclua esses perigos, controle médico dos trabalhadores e um responsável técnico pela operação. É o tipo de custo que não aparece no folheto do fornecedor, mas precisa estar no estudo de viabilidade.

Quanto custa e quem paga

Não existe preço de prateleira. O investimento depende da escala, do tipo de tecnologia, do pré-tratamento, do uso do gás e da infraestrutura que o município já tem. Por isso o primeiro passo é sempre um estudo de viabilidade técnico-econômica, que compara alternativas, estima investimento e custo de operação e monta o fluxo de caixa com cenários.

O dinheiro para executar pode vir de várias fontes, e muitas vezes de uma combinação delas:

  • Fundo Clima (BNDES): em 2026, o fundo tem R$ 27 bilhões em recursos reembolsáveis, e a linha de transição energética inclui biomassa e combustíveis derivados de resíduos.
  • FNE Verde (Banco do Nordeste): R$ 5,06 bilhões em 2026 para investimentos sustentáveis na área de atuação do banco.
  • Recursos da União para resíduos: municípios sem plano municipal de resíduos (PMGIRS) ficam sem acesso a recursos federais para limpeza urbana e manejo de resíduos. Ter o plano em dia é pré-requisito.
  • Receita do próprio projeto: economia de combustível ou energia, venda de biometano, biofertilizante e redução do custo de aterro.
  • Mandato do biometano: a Lei do Combustível do Futuro criou, a partir de 2026, demanda obrigatória por biometano para produtores e importadores de gás natural. Em projetos com escala para purificar o gás, isso abre um comprador que antes não existia.

O que o banco quer ver é um projeto pronto: estudo de viabilidade, licença ou protocolo, garantias e a parte socioambiental resolvida. Detalhei esse caminho em desenvolvimento de projetos de energia: as 6 fases do papel à planta.

Como a prefeitura pode contratar

Há alguns modelos possíveis, cada um com vantagens e cuidados:

  • Obra própria com operação municipal: a prefeitura contrata projeto e obra e opera com equipe própria. Dá controle, mas exige equipe técnica e orçamento para manutenção.
  • Obra própria com operação terceirizada: a prefeitura é dona da planta e contrata uma empresa para operar, com metas de desempenho.
  • Concessão ou parceria público-privada: uma empresa investe, constrói e opera por um período, remunerada por tonelada tratada e pela venda dos produtos. Exige estrutura de contrato mais robusta.
  • Consórcio intermunicipal: vários municípios dividem uma planta regional e o custo, e ganham escala para negociar.

Para a fase de estudo e de projeto conceitual, contratações de engenharia de menor valor podem caber em dispensa de licitação, dentro do limite legal atualizado a cada ano. Obras e operação, em geral, passam por licitação. O jurídico do município deve validar o enquadramento de cada etapa.

Os erros que mais derrubam esse tipo de projeto

  1. Comprar o biodigestor antes de medir o resíduo. A planta fica grande demais ou pequena demais, e o rendimento nunca aparece.
  2. Contar com uma coleta seletiva que ainda não existe. O projeto supõe orgânico limpo, e chega resíduo misturado.
  3. Não ter destino para o gás. Biogás produzido sem consumo vai para o queimador, e a receita esperada não vem.
  4. Não ter destino para o biofertilizante. Ele se acumula, gera odor e vira problema ambiental.
  5. Esquecer a operação no orçamento. Equipe, análises, manutenção, responsável técnico e segurança são custo permanente.
  6. Deixar a licença e a segurança para o fim. A obra fica pronta e a planta não pode operar.
  7. Projeto desenhado sem a agricultura e a assistência social. O biofertilizante e o gás de cozinha têm valor social enorme quando chegam à agricultura familiar e às cozinhas comunitárias, como mostra o caso de Sorriso.

Quanto tempo leva: um cronograma realista

Projeto de resíduos com biodigestor não se resolve num mandato de seis meses, mas também não precisa levar uma década. Uma sequência realista para um município pequeno ou médio:

EtapaO que acontecePrazo típico
DiagnósticoGravimetria do lixo, levantamento dos grandes geradores, situação do lixão e do aterro1 a 3 meses
Pré-viabilidadeCompara alternativas (compostagem, biodigestor, consórcio) e diz se vale seguir1 a 2 meses
Estudo de viabilidade e projeto conceitualDefine tecnologia, tamanho, uso do gás, destino do biofertilizante, custos e fluxo de caixa2 a 4 meses
Licenciamento e financiamentoEstudos ambientais, licença prévia, pedido ao banco ou ao fundo6 a 12 meses, em paralelo
Projeto executivo e contratação da obraProjeto detalhado, licitação ou contratação por outro modelo3 a 6 meses
Obra e partidaConstrução, montagem, partida biológica do biodigestor e treinamento da equipe8 a 18 meses

São prazos de referência. O que mais atrasa, quase sempre, é o licenciamento começar tarde e a coleta separada não estar pronta quando a planta fica pronta. Por isso a campanha de separação e os acordos com grandes geradores devem começar junto com o estudo, e não depois da obra.

Indicadores que a prefeitura deve acompanhar

Um projeto desse tipo precisa ser medido desde o primeiro dia, tanto para corrigir a rota quanto para prestar contas à população, ao Ministério Público e ao financiador. Os indicadores mais úteis:

  • toneladas de orgânico recebidas por dia, separadas por origem (grandes geradores e coleta domiciliar);
  • taxa de contaminação do orgânico: quanto de plástico, vidro e metal chega misturado. É o indicador que antecipa problema no biodigestor;
  • biogás produzido por tonelada e teor de metano, para saber se o processo está saudável;
  • uso efetivo do biogás: quanto foi aproveitado e quanto foi para o queimador;
  • biofertilizante distribuído, para quem e com quais resultados de análise;
  • toneladas desviadas do aterro e a projeção de vida útil da célula;
  • custo por tonelada tratada, comparado com o custo de aterrar;
  • acidentes e quase acidentes na operação, especialmente ligados a gás e espaço confinado.

Com esses números em mãos, o gestor sabe se a planta está entregando o que prometeu e tem argumento concreto para ampliar a coleta ou buscar novos parceiros.

O que fica para o gestor público

Aterro com biodigestor não é luxo de cidade grande nem projeto de vitrine. É uma forma concreta de fechar o lixão, aumentar a vida útil do aterro, gastar menos com transporte e combustível, produzir energia local e devolver nutriente para quem produz comida no próprio município.

Os casos de Juiz de Fora e de Söderhamn mostram o mesmo recado por caminhos diferentes. Lá, o projeto começa pelos grandes geradores e por um destino de alto valor para o gás. Aqui, pela adesão das famílias à separação. Em ambos, quem decide o sucesso não é o tanque: é a coleta, a escala e a operação.

Para um município do interior, o primeiro passo cabe no orçamento de qualquer prefeitura: pesar o lixo, conversar com os grandes geradores e fazer um estudo que diga, com números, se o orgânico da cidade paga um biodigestor e qual o tamanho certo para ele.

Perguntas frequentes

Biodigestor substitui o aterro sanitário?

Não. O biodigestor trata o orgânico. O rejeito, aquilo que não pode ser reciclado nem tratado, continua indo para o aterro. O que muda é que o aterro recebe muito menos material e dura mais.

Biodigestor dá cheiro?

O tanque é fechado, então o processo em si tem pouco odor. Os pontos de atenção são a recepção do resíduo e o armazenamento do biofertilizante. Projeto bem feito prevê área de recepção fechada, controle de odores e rotina de limpeza.

Município pequeno consegue ter biodigestor?

Consegue, com escala adequada. Começar pelos grandes geradores e usar o biogás no próprio local (cozinha, caldeira ou energia da central) é o caminho mais realista. Para biometano, o mais comum é o consórcio regional.

O biofertilizante pode ir para a horta?

Pode, desde que tenha qualidade comprovada por análise, com controle de patógenos e de contaminantes. Para hortaliças consumidas cruas, o controle precisa ser mais rigoroso.

Dá para usar o biogás no caminhão de lixo?

Dá, depois de purificado para biometano e com veículos adaptados ou movidos a gás. É o que Juiz de Fora planeja para os ônibus. Exige escala e investimento em purificação e abastecimento.

Por onde começar?

Pela gravimetria do lixo e pela lista dos grandes geradores de orgânico do município. Com esses dois dados, um estudo de pré-viabilidade diz se vale seguir, qual o tamanho do projeto e para onde vão o gás e o biofertilizante.


Se o seu município está saindo do lixão, planejando um aterro ou revisando o plano de resíduos, me chame no WhatsApp. Eu mostro por onde começar o estudo do orgânico e quanto ele pode render.


Fontes: Prefeitura de Sorriso (09/06/2026); Universidade Federal de Juiz de Fora (28/03/2025); Interreg Europe, boa prática de Söderhamn; CIBiogás, Panorama do Biogás 2025; IBGE e Panorama de Resíduos; BNDES Fundo Clima; Banco do Nordeste.

Alênio Honório
Alênio HonórioEngenheiro químico e engenheiro de segurança do trabalho. Fundador da Scaletec, atua com SST e regulatório químico para empresas de todo o Brasil.
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