Todo mês aparece um empresário com a mesma frase: "me falaram que dá para gerar energia com isso aqui".
O "isso aqui" muda. Pode ser o soro do laticínio, o esterco da granja, a vinhaça do alambique, o telhado do galpão ou a conta de energia que dobrou. A ideia quase sempre tem fundamento. O que falta é o caminho entre a ideia e a planta funcionando.
Esse caminho tem nome: desenvolvimento de projetos. É o trabalho de transformar uma oportunidade em um projeto que o dono aprova, o órgão ambiental licencia e o banco financia. Sou engenheiro químico e engenheiro de segurança do trabalho, já montei e operei fábrica própria e trabalho com projetos industriais de energia de baixo carbono. Neste artigo eu mostro as seis fases desse caminho e onde a maioria dos projetos para.
Por que tanto projeto bom morre no meio do caminho?
Porque cada fase pede um especialista diferente, e quase ninguém olha o projeto inteiro.
O fornecedor do equipamento olha a máquina. O contador olha o imposto. O consultor ambiental olha a licença. O gerente do banco olha a garantia. Cada um faz bem a sua parte, mas ninguém responde a pergunta que importa para o dono: esse projeto se paga, é legal e consegue dinheiro?
O Brasil tem 1.803 plantas de biogás em operação, segundo o Panorama 2025 do CIBiogás, e o número cresce 5% ao ano. Para cada planta que sai do papel, várias ideias param em alguma das fases abaixo.
As 6 fases de um projeto de energia
| Fase | Pergunta que responde | O que entrega |
|---|---|---|
| 1. Ideia e local | Tem recurso e tem onde fazer? | Inventário do resíduo, da carga ou do terreno |
| 2. Pré-viabilidade | Vale a pena gastar com um estudo completo? | Ordem de grandeza de investimento e retorno |
| 3. Viabilidade (EVTE) | Se paga, com que risco? | Estudo técnico-econômico com fluxo de caixa |
| 4. Licenças e contratos | É legal e tem quem compre a energia? | Licença prévia, terreno, contrato de venda ou de consumo |
| 5. Financiamento | Quem põe o dinheiro? | Pacote para o banco ou para o investidor |
| 6. Obra e operação | Funciona e continua legal? | Planta comissionada, RT, SST e licença de operação |
1. Ideia e local: o recurso existe?
Antes de qualquer conta, é preciso medir o que se tem. Quantas toneladas de resíduo por dia, com que composição, o ano inteiro ou só na safra? Quanto de energia a empresa consome, em que horário, a que tarifa?
Parece óbvio, mas é aqui que nasce o maior erro: dimensionar a planta pelo pico da safra e descobrir depois que, em seis meses do ano, ela roda pela metade.
2. Pré-viabilidade: vale gastar com o estudo completo?
É uma conta rápida, de duas a três semanas, com dados que a empresa já tem. Ela não decide o investimento. Decide se vale a pena seguir.
Uma boa pré-viabilidade termina com uma de três respostas: segue, não segue ou segue se (por exemplo, "segue se o vizinho fornecer mais resíduo"). Um "não segue" nessa fase é dinheiro economizado, não fracasso.
3. Viabilidade técnico-econômica: se paga, com que risco?
É o coração do projeto. O estudo de viabilidade técnico-econômica (EVTE) define a tecnologia, dimensiona a planta, estima investimento e custo de operação e monta o fluxo de caixa de 15 a 20 anos. Daí saem os indicadores que o dono e o banco leem: VPL, TIR e payback.
O que separa um EVTE bom de um ruim é a análise de risco. Um estudo que só mostra o cenário bonito não serve para decidir nada. Em breve publico aqui no blog um artigo só sobre o que tem dentro de um EVTE.
4. Licenças e contratos: é legal e tem quem compre?
Aqui o projeto encontra o mundo real. Três frentes andam juntas:
- Licenciamento ambiental: enquadramento da atividade, estudos exigidos pelo órgão e condicionantes. Uma planta de biogás mexe com efluente, gás inflamável e odor, e o órgão vai olhar os três.
- Terreno e acesso: posse ou contrato de uso da área, faixa para gasoduto ou linha de energia, acesso de caminhão.
- Quem compra a energia: consumo próprio, venda de biometano para uma distribuidora de gás, venda de energia no mercado livre ou contrato de longo prazo (o PPA). Sem comprador definido, o banco não financia.
5. Financiamento: quem põe o dinheiro?
Projeto de energia é intensivo em capital. Mesmo quem tem caixa costuma financiar parte, porque existem linhas com prazo e carência pensadas para isso. No Nordeste, o FNE de 2026 tem R$ 5,06 bilhões no FNE Verde, segundo o Banco do Nordeste.
O banco não financia uma ideia. Financia um pacote: EVTE no formato que ele pede, licença, garantias e a parte socioambiental. Vou detalhar esse pacote num próximo artigo sobre financiamento de energia limpa no Nordeste.
6. Obra e operação: funciona e continua legal?
A planta comissionada não é o fim. É o começo de 20 anos de operação, com licença de operação a renovar, condicionantes a cumprir, responsável técnico, programa de segurança do trabalho e, no caso do biogás, um gás inflamável e tóxico circulando dentro da propriedade.
Essa é a fase que mais vejo esquecida no planejamento. O custo de manter a planta dentro da lei precisa estar no fluxo de caixa da fase 3.
Onde a maioria dos projetos trava
Pela minha experiência com projetos industriais, três pontos derrubam mais projetos do que a tecnologia:
- Pular a pré-viabilidade. O dono vai direto para o orçamento do fornecedor, que vem sem análise de risco e com o melhor cenário.
- Deixar a licença para depois. O projeto fica pronto e descobre que o terreno não comporta a atividade ou que o órgão pede um estudo de seis meses.
- Não ter comprador para a energia. Gerar é fácil. Vender ou consumir o ano inteiro, a um preço que pague a planta, é o que exige contrato.
Que tipo de projeto está em alta agora?
Nem todo projeto de energia está no mesmo momento. Hoje eu separo assim:
- Biogás e biometano: em alta. O mandato de biometano começou em 2026 e cria demanda obrigatória.
- Eficiência energética na indústria: sempre em alta. É o projeto de menor risco, porque a economia vem da conta que a empresa já paga.
- Mercado livre de energia: 21,7 mil unidades migraram em 2025, segundo a CCEE. Mas a migração esfriou em 2026 com a alta de preço: hoje vale mais estudar com calma do que migrar com pressa.
- Solar: mercado grande, mas a ABSOLAR prevê queda de 7% na expansão em 2026, com cortes de geração (curtailment) e mudança na tarifa de uso da rede. Ainda faz sentido em muitos casos, mas o estudo precisa ser mais cuidadoso do que era há três anos.
Perguntas frequentes
Quanto tempo leva do papel à planta?
Depende do porte e do licenciamento. Uma planta de biogás de médio porte costuma levar de um a três anos entre a primeira medição e a operação. A maior parte desse tempo está nas fases 4 e 5, não na obra.
Preciso contratar um estudo antes de falar com o fornecedor?
Não precisa, mas compensa ao menos uma pré-viabilidade independente. O orçamento do fornecedor responde quanto custa a máquina. A pré-viabilidade responde se a máquina faz sentido para a sua empresa.
Projeto pequeno também passa por essas fases?
Passa, só que mais rápido e mais barato. Uma empresa média não precisa do mesmo volume de estudo de uma usina de grande porte, mas precisa das mesmas respostas: se paga, é legal e tem dinheiro.
Se a sua empresa tem resíduo, conta de energia alta ou uma ideia de projeto parada, o primeiro passo é saber em que fase ela está. Me chame no WhatsApp e eu digo qual é o próximo passo, sem compromisso.




