Quando eu era mais novo e viajava com meus pais, sempre que ficávamos atrás de um caminhão-tanque ou de carga seca com aquela placa laranja na estrada tinha o mesmo ritual. Meu pai, que nem era da área, apontava para aquela placa laranja com dois números e dizia que cada código daqueles se referia a um produto específico.
Eu ficava curioso. Que produto era aquele? Era perigoso? Por que dois números?
Depois que eu cresci e virei engenheiro químico, entendi os códigos. E confesso que o ritual continua: toda vez que paro atrás de um caminhão, olho a placa e tento reconhecer o que ele está levando.
Neste artigo eu explico como ler a placa laranja e listo os códigos que mais rodam nas rodovias brasileiras, começando pelos produtos que o Brasil mais consome.
O que é a placa laranja do caminhão?
O nome técnico é painel de segurança. É a placa retangular laranja, com borda preta, que aparece na frente, na traseira e nas laterais dos veículos que transportam produtos perigosos. Ela traz dois números:
- Em cima, o número de risco, que diz que tipo de perigo o produto oferece.
- Embaixo, o número ONU, que identifica exatamente qual é o produto.
Junto com ela costuma aparecer o rótulo de risco, aquele losango com um símbolo e um número embaixo, que mostra a classe do produto: inflamável, corrosivo, tóxico e assim por diante.
Na foto de capa deste artigo, por exemplo, a placa mostra 80 em cima e 1824 embaixo. É hidróxido de sódio em solução, a soda cáustica líquida, um produto corrosivo. Ao lado dela está o losango de corrosivo.
Como ler o número de cima?
O número de risco tem dois ou três algarismos, e cada um significa um tipo de perigo:
- 2: gás, por pressão ou por reação química
- 3: inflamável (líquido ou gás)
- 4: sólido inflamável
- 5: oxidante, que alimenta o fogo
- 6: tóxico
- 7: radioativo
- 8: corrosivo
- 9: risco de reação violenta
O primeiro algarismo é o risco principal. Os seguintes são riscos adicionais. Quando o algarismo se repete, o risco é mais intenso: 33 é muito inflamável. O zero só completa o número quando há um risco só: 30 é inflamável, sem outro risco associado. E quando aparece um X antes do número, o produto reage de forma perigosa com água.
E o número de baixo?
É o número ONU, com quatro algarismos, definido pelas Nações Unidas. Ele é o “CPF” do produto: 1203 é gasolina em qualquer lugar do mundo. É por ele que o bombeiro, a polícia rodoviária e a equipe de emergência sabem exatamente com o que estão lidando.

Quais são os códigos mais comuns nas rodovias brasileiras?
Os combustíveis dominam as estradas. Depois vêm os produtos químicos que abastecem a indústria, o saneamento e o agronegócio.
Combustíveis
- 30 / 1202: óleo diesel. O combustível mais consumido no Brasil, e a placa que você mais vai ver.
- 33 / 1203: gasolina. Muito inflamável, por isso o 3 repetido.
- 33 / 1170: etanol. O álcool combustível, também muito inflamável.
- 23 / 1075: GLP, o gás de cozinha. Gás inflamável.
- 30 / 1863: querosene de aviação, a caminho dos aeroportos.
- 99 / 3257: asfalto aquecido. Produto transportado em temperatura elevada, comum perto de obras de rodovia.
Produtos químicos industriais
- 80 / 1830: ácido sulfúrico. Um dos químicos mais usados na indústria e na produção de fertilizantes.
- 80 / 1824: soda cáustica em solução, a da foto de capa.
- 80 / 1789: ácido clorídrico.
- 80 / 1791: hipoclorito de sódio, usado no tratamento de água e na limpeza.
- 336 / 1230: metanol. Muito inflamável e tóxico.
- 268 / 1005: amônia anidra. Gás tóxico e corrosivo.
- 265 / 1017: cloro. Gás tóxico, oxidante e corrosivo, usado no tratamento de água.
- 58 / 2014: peróxido de hidrogênio, a água oxigenada industrial.
Carga seca: sacos, bombonas e tambores
A placa laranja não é exclusiva do caminhão-tanque. Carga seca com produto perigoso também precisa de identificação:
- 80 / 1813: hidróxido de potássio sólido, em sacos.
- 50 / 2067: fertilizante à base de nitrato de amônio, oxidante.
Quando o caminhão leva vários produtos perigosos diferentes em embalagens, é comum ver a placa laranja sem números. Nesse caso, os produtos estão identificados nas embalagens e na documentação da carga.

E se eu vir um acidente com um desses caminhões?
A placa existe justamente para isso. Se você presenciar um acidente:
- Mantenha distância e não se aproxime para ajudar sem proteção. Vapores e líquidos podem não ser visíveis.
- Fique com o vento a seu favor, ou seja, do lado de onde o vento vem, longe da nuvem de vapor.
- Ligue para os bombeiros (193) e informe os dois números da placa laranja. Isso já orienta a resposta antes mesmo de a equipe chegar.
- Não fume nem acenda nada perto do local.
Para quem transporta: a placa é obrigação, não enfeite
Para a transportadora e para quem expede a carga, a placa laranja é obrigação do regulamento de transporte de produtos perigosos. Placa errada, faltando ou com o número de outro produto atrapalha o atendimento em uma emergência e expõe a empresa a autuação e a responsabilidade em caso de acidente.
Acertar a placa depende de classificar o produto corretamente a partir da FDS (Ficha com Dados de Segurança), saber o que pode viajar junto e manter veículo, documentação e equipe em dia. É trabalho para quem entende de produto químico. Expliquei isso em detalhe no artigo sobre responsável técnico e conformidade química para transportadoras.
Se a sua empresa transporta ou expede produto químico e você quer conferir se está tudo certo, comece pelo diagnóstico gratuito.
Perguntas frequentes
O que significa o X antes do número da placa laranja?
Significa que o produto reage de forma perigosa com água. Em uma emergência, a equipe não deve usar água sobre ele sem orientação técnica.
O que significa a placa laranja sem números?
Em geral, que o veículo leva produtos perigosos diferentes em embalagens. A identificação de cada produto fica nas embalagens e na documentação da carga.
Onde consultar o que significa cada número ONU?
Na FDS do produto e nos manuais de atendimento a emergências com produtos perigosos, que listam os números ONU e as medidas de resposta para cada um.
Quem é responsável pela placa laranja do caminhão?
A regulamentação divide as responsabilidades entre quem expede a carga e quem transporta. Na prática, o veículo não deve sair sem a identificação correta do produto que está levando.



